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Recorde de exportações coloca o Brasil no centro da disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo
A soja brasileira ganhou ainda mais importância no comércio internacional e passou a ocupar posição estratégica na disputa comercial entre China e Estados Unidos. O país deve alcançar novo recorde de exportações em 2026, enquanto Pequim retoma parte das compras da produção americana.
Segundo estimativa da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), o Brasil deve embarcar 114 milhões de toneladas de soja em 2026, quase 5% acima do recorde registrado no ano anterior.
Entre janeiro e julho, foram exportadas 84,8 milhões de toneladas, cerca de 5 milhões a mais que no mesmo período de 2025. Para agosto, a Anec estima embarques próximos de 9,7 milhões de toneladas.
O crescimento reforça a posição brasileira como principal fornecedor mundial da commodity. Porém, também aumenta a exposição do agronegócio às decisões comerciais tomadas por China e Estados Unidos.
A China é o principal destino da soja brasileira. Nos primeiros cinco meses de 2026, o país asiático respondeu por aproximadamente 70% dos embarques brasileiros, segundo dados da Anec.
Na prática, cerca de sete de cada dez toneladas exportadas pelo Brasil tiveram a China como destino nesse período.
A Espanha aparece na sequência, com aproximadamente 5% das compras. Turquia e Tailândia responderam por cerca de 4% e 3%, respectivamente.
Essa concentração mostra uma relação de dependência entre os dois países. A China precisa de grandes volumes de soja para abastecer sua cadeia de produção de proteína animal, enquanto o Brasil depende do mercado chinês para absorver parte relevante de sua produção.
A relação entre Brasil e China ganhou força principalmente após o início da guerra comercial entre Pequim e Washington, em 2018.
Com a aplicação de tarifas chinesas sobre produtos agrícolas americanos, compradores chineses passaram a buscar fornecedores alternativos. O Brasil, que já possuía escala e competitividade, ganhou espaço e se tornou o principal fornecedor de soja para o mercado chinês.
Ao mesmo tempo, a participação dos Estados Unidos nas compras chinesas diminuiu.
Agora, porém, o cenário começa a mudar. A retomada das negociações entre China e Estados Unidos levou Pequim a voltar a comprar volumes relevantes da nova safra americana.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, tradings estatais chinesas adquiriram cerca de 1 milhão de toneladas da nova safra dos Estados Unidos no início de agosto. Além disso, a China assumiu o compromisso de comprar pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028.
A retomada das compras chinesas dos Estados Unidos aumenta a concorrência para o Brasil, mas não significa que cada tonelada adquirida pelos americanos será automaticamente perdida pelos produtores brasileiros.
O comércio internacional de soja funciona por meio de diferentes fluxos. Se a China comprar mais dos Estados Unidos, outros países que tradicionalmente adquirem soja americana podem aumentar suas compras do Brasil.
Dessa forma, os fluxos internacionais podem ser reorganizados conforme a demanda de cada mercado.
Esse movimento reduz parte do impacto sobre as exportações brasileiras. Ainda assim, uma maior oferta americana no mercado chinês pode pressionar os preços e os prêmios pagos pela soja brasileira.
O aumento das vendas externas ocorre em um momento de margens mais apertadas para os produtores.
A Anec estima que o custo médio de produção da soja em Mato Grosso chegou a US$ 423,31 por tonelada. Enquanto isso, a receita média obtida com a exportação ficou em US$ 417,01 por tonelada.
Os números mostram um cenário de alerta. O Brasil pode vender mais soja ao exterior, mas isso não significa, necessariamente, maior rentabilidade dentro das propriedades rurais.
O aumento dos custos de produção e a pressão sobre os preços tornam o desempenho das exportações ainda mais importante para o setor.
A disputa entre China e Estados Unidos também mostra que a soja deixou de ser apenas uma commodity agrícola. O produto passou a ocupar espaço estratégico na chamada geopolítica dos alimentos.
A China é a maior importadora mundial de soja. O produto é utilizado principalmente na produção de farelo, uma importante fonte de proteína para a alimentação de suínos e aves.
Por isso, garantir o fornecimento da commodity também representa uma questão de segurança alimentar para Pequim.
A estratégia chinesa inclui a diversificação dos fornecedores. Dessa maneira, o país reduz os riscos provocados por guerras comerciais, problemas climáticos, restrições logísticas ou tensões diplomáticas.
Nesse cenário, Brasil e Estados Unidos permanecem como fornecedores estratégicos.
Para o Brasil, a crescente importância dos alimentos no cenário internacional representa uma oportunidade. O país se consolidou como um dos principais fornecedores agrícolas do mundo e possui capacidade para ampliar sua participação em diferentes mercados.
Ao mesmo tempo, a forte dependência da China mostra a necessidade de diversificar destinos.
Uma nova escalada entre Pequim e Washington poderia favorecer novamente a soja brasileira. Por outro lado, uma aproximação comercial entre as duas potências pode aumentar a concorrência americana e pressionar os preços.
Assim, o recorde de 114 milhões de toneladas projetado para 2026 possui dois lados.
O resultado reforça a competitividade do agronegócio brasileiro e amplia a geração de divisas. Porém, também evidencia como a produção nacional está ligada às decisões tomadas pelas maiores economias do mundo.
No mercado global de alimentos, uma mudança comercial em Pequim ou Washington pode atravessar continentes e chegar diretamente ao produtor brasileiro.
Fonte: Anec e informações de mercado citadas na matéria.
Foto: Imagem gerada por IA.
Escrito por Rádio Terra
today12 de abril de 2023 9650 9
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