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Romaria de Trindade: fé, poeira e tradição nos passos lentos dos carros de boi

today30 de junho de 2025 104

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Entre o ranger das rodas de madeira e o som compassado dos cascos, a cidade de Trindade (GO) se prepara para receber, mais uma vez, uma das expressões mais autênticas da fé popular brasileira: a chegada dos carros de boi à Romaria do Divino Pai Eterno. A tradicional manifestação, marcada para o dia 3 de julho de 2025, reunirá cerca de 500 veículos rústicos na Praça da Igreja Matriz, onde ocorre a bênção solene dos missionários redentoristas.

Símbolo da religiosidade e da resistência cultural, os carros de boi são protagonistas de uma tradição que remonta ao século XIX. De acordo com o historiador Paulo Afonso, esse costume tem raízes nas primeiras romarias, por volta de 1840, quando as famílias usavam o carro de boi como principal meio de transporte para a festa religiosa. “Naquela época, viajavam por dias, carregando mantimentos, promessas e fé. O que começou como necessidade virou um rito carregado de simbolismo”, explica.

A peregrinação mobiliza comitivas de diferentes regiões de Goiás e até de estados vizinhos, como Minas Gerais e Mato Grosso. Em ritmo lento — entre 15 a 20 km por dia —, respeitando o tempo dos animais, os romeiros enfrentam longas distâncias em nome da fé. Ao longo do trajeto, acampam em fazendas, cozinham em fogões improvisados e compartilham refeições típicas como arroz com pequi, carne seca e paçoca.

Atualmente, estima-se que cerca de 1,2 mil carros de boi participem da Romaria durante os dez dias de celebração. Para o padre João Bosco de Deus, responsável pela tradicional bênção da “Quinta-feira dos Carros de Boi”, o momento é de emoção e profundo simbolismo. “É uma manifestação coletiva de sacrifício, fé e união. Ver famílias inteiras, do mais novo ao mais velho, movidas por uma causa maior, é algo que emociona profundamente”, afirma.

Após a bênção na Matriz, os carreiros percorrem as ruas da cidade em direção ao Carreiródromo Ada Cyra, espaço criado especialmente para celebrar essa cultura centenária. No sábado, dia 5, o desfile com cavaleiros, muladeiros e carreiros promete reforçar ainda mais os laços entre tradição, religiosidade e identidade goiana.

Para o historiador Paulo Afonso, os carros de boi são mais do que meios de transporte: são verdadeiros “altares ambulantes”. “Eles carregam não apenas promessas, mas histórias de vida, lutas e esperanças. É o povo goiano reafirmando sua identidade diante da modernidade”, conclui.

Escrito por Rádio Terra

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